
O Centro de Referência Maria Quitéria (CRMQ), vinculado à Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, registrou um aumento significativo nos atendimentos a mulheres vítimas de violência em Feira de Santana no primeiro trimestre de 2026. Os dados, apresentados pela coordenadora Vanessa Cunha Boaventura, revelam não apenas o crescimento dos casos, mas também a complexidade das situações enfrentadas pelas vítimas.
De acordo com a coordenadora, a análise comparativa entre os meses de janeiro a março de 2025 e o mesmo período de 2026 evidencia um avanço expressivo na procura pelos serviços.
“A realidade acompanhada pelo CRMQ confirma esse padrão nacional de que a violência contra a mulher ocorre no ambiente doméstico, especialmente nas relações íntimas”, afirmou.
Em janeiro de 2025, foram registrados 58 novos atendimentos, número que saltou para 85 em janeiro de 2026. Em fevereiro, o crescimento foi ainda mais acentuado: de 42 para 108 atendimentos. Já em março, os registros passaram de 36 para 70 novos casos.
“Estamos falando de um aumento expressivo em todos esses meses, com destaque sobretudo para fevereiro”, destacou Vanessa.
Além dos atendimentos iniciais, houve crescimento nas demandas por acompanhamento psicológico, social e jurídico.
“Esses atendimentos praticamente dobraram, o que demonstra não apenas o aumento dos casos, mas também a maior complexidade das situações”, explicou.
No atendimento psicológico, por exemplo, os registros passaram de 43 para 113 em janeiro, de 40 para 81 em fevereiro e de 56 para 98 em março. Já no serviço social, os números saltaram de 61 para 115 em janeiro, de 65 para 130 em fevereiro e de 46 para 128 em março de 2026.
Segundo a coordenadora, o aumento também está relacionado ao fortalecimento das estratégias de acolhimento e incentivo à denúncia.
“A gente verifica isso pelos próprios dados. As mulheres conseguem identificar que existe um equipamento que oferece escuta qualificada, atendimento humanizado e encaminhamento para a rede de proteção”, disse.
Outro fator apontado é a ampliação da chamada “busca ativa”, realizada a partir de medidas protetivas encaminhadas pela Justiça.
“Quando vemos o crescimento dessa busca ativa, reforçamos que estamos lidando com relações continuadas entre vítimas e agressores, o que é característico da violência doméstica”, explicou.
O perfil das vítimas segue um padrão predominante: mulheres entre 20 e 45 anos, geralmente envolvidas em relações afetivas atuais ou recentes, muitas vezes com dependência emocional ou econômica.
“Frequentemente são mulheres com filhos, que mantêm ou mantiveram vínculo com o agressor”, pontuou.
Já os agressores, segundo o levantamento, são em sua maioria parceiros ou ex-parceiros, com comportamento controlador e reincidente.
“Há também registros de descumprimento de medidas protetivas, o que agrava ainda mais a situação”, acrescentou.
A coordenadora também chamou atenção para o aumento de casos na zona rural do município.
“Isso levanta um alerta importante e tem motivado ações específicas nessas localidades, com atividades de conscientização e enfrentamento à violência”, afirmou.
Apesar do crescimento nos números, Vanessa destaca que o cenário também reflete uma redução da subnotificação.
“Esse aumento não indica apenas mais violência, mas também uma maior confiança das mulheres nos serviços públicos”, avaliou.
Entre os principais desafios enfrentados pelo CRMQ estão a continuidade e a reincidência da violência, além da vulnerabilidade socioeconômica das vítimas.
“A dependência emocional e financeira ainda é um grande obstáculo. Por isso, buscamos encaminhar essas mulheres para programas de inserção no mercado de trabalho”, explicou.
No campo jurídico, também houve avanço na busca por direitos. “Observamos um aumento na procura por orientação jurídica e medidas protetivas, o que demonstra o fortalecimento da judicialização desses casos”, disse.
Para Vanessa Cunha Boaventura, o cenário exige respostas cada vez mais qualificadas da rede de proteção.
“Os dados evidenciam que Feira segue o padrão nacional, com predominância da violência doméstica e crescimento consistente dos atendimentos. Isso reforça a necessidade de ampliar o acesso, fortalecer a rede e garantir proteção efetiva às mulheres”, concluiu.
A coordenadora ainda ressaltou o papel do poder público municipal. “A Prefeitura de Feira de Santana, por meio da Secretaria de Políticas para as Mulheres, tem intensificado as ações de enfrentamento, ampliado o acesso aos serviços e qualificado o atendimento às mulheres em situação de violência”, finalizou.
*Com informações do repórter JP Miranda
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