
A proposta do Governo Federal de subsidiar em R$ 1,20 por litro o diesel importado, anunciada na terça-feira (24) pelo Ministério da Fazenda, surge como uma tentativa de conter a escalada dos preços diante das tensões no cenário internacional.
Neste contexto, o subsídio é uma medida adotada pelo governo para reduzir o custo do diesel na origem, seja por meio de redução de impostos ou compensação financeira aos agentes da cadeia. Na prática, isso pode acontecer com o governo bancando parte do valor do combustível para refinarias, importadores ou distribuidores, com o objetivo de que o produto chegue mais barato ao consumidor final. No modelo atual, esse custo será dividido entre União e Estados, numa proporção de R$ 0,60 para cada.
A medida, no entanto, apesar de trazer alívio imediato, levanta preocupações sobre seus efeitos no médio e longo prazo. O economista Gesner Brehmer explicou que a iniciativa tem potencial de reduzir a pressão sobre os preços no curto prazo, mas alertou que o impacto real ao consumidor depende de uma série de fatores.
“A princípio, a medida tem potencial para mitigar novos aumentos, mas a redução efetiva no preço final depende de variáveis mais complexas”, afirmou.
O valor se soma a um benefício anterior de R$ 0,32, totalizando R$ 1,52 por litro. Ainda assim, segundo o economista, isso não garante queda imediata nas bombas.
“Não há garantia de que esse desconto será integralmente repassado ao consumidor, porque distribuidoras e postos podem usar esse valor para recompor margens ou cobrir custos operacionais”, destacou.
Outro ponto levantado é a defasagem entre o preço interno e o mercado internacional, estimada em cerca de R$ 3 em alguns períodos.
“Esse subsídio cobre apenas parte dessa lacuna, funcionando mais como um amortecedor contra novos reajustes do que como uma ferramenta de redução real de preços”, explicou.
Além disso, o tempo de repasse também pode atrasar os efeitos percebidos pelo consumidor.
“Os postos costumam demorar alguns dias para repassar reduções, sob o argumento de que precisam girar o estoque adquirido a preços anteriores”, completou.
Impacto fiscal e riscos econômicos
Com custo estimado em R$ 3 bilhões até maio de 2026, a medida também pressiona as contas públicas e pode comprometer a meta de déficit zero do governo.
“O governo vai precisar financiar esse subsídio, o que pode elevar a dívida pública e aumentar a percepção de risco do país”, afirmou Brehmer.
Segundo ele, esse cenário pode afastar investidores estrangeiros e gerar reflexos na política monetária.
“Se o mercado entender que há abandono da disciplina fiscal, as expectativas de inflação sobem e isso pode forçar o Banco Central a aumentar novamente a taxa de juros”, disse.
O economista também alertou para distorções no mercado e impactos ambientais.
“Quando o governo subsidia o diesel, ele altera o sinal de preços da economia, desestimulando eficiência e reduzindo o incentivo à adoção de fontes mais limpas, como o biodiesel”, pontuou.
Efeito sobre inflação e transporte
Apesar dos riscos, o subsídio pode trazer efeitos positivos no curto prazo, especialmente no setor de transporte, que depende fortemente do diesel.
“O combustível representa entre 35% e 50% do custo operacional do transporte rodoviário. Se houver repasse, isso pode evitar reajustes elevados no frete e garantir uma estabilidade momentânea ao setor”, explicou.
Ele também destacou que a medida pode ajudar a preservar a margem de pequenas empresas e caminhoneiros autônomos.
“Muitas vezes, o transportador não consegue repassar imediatamente o aumento do combustível e acaba operando no prejuízo. O subsídio ajuda a manter a atividade sem colapsar as margens”, afirmou.
No campo da inflação, o impacto ocorre tanto de forma direta quanto indireta.
“O diesel tem peso direto no índice de inflação, então segurar seu preço ajuda a conter o IPCA no curto prazo. Mas o principal efeito é indireto, já que praticamente tudo que o brasileiro consome passa pelo transporte rodoviário”, disse.
Risco de inflação reprimida
Brehmer alerta que a medida pode apenas adiar um problema maior.
“O subsídio não elimina o custo do petróleo, apenas transfere esse custo do consumidor para o contribuinte. Quando ele for retirado, o ajuste tende a ser rápido e pode gerar um choque inflacionário mais difícil de absorver”, concluiu.
A proposta do governo tem caráter emergencial e validade prevista até 31 de maio de 2026. A adesão dos estados ainda será discutida no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).
*Com informações do repórter JP Miranda
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