
O Carnaval de Salvador é uma das maiores festas populares do planeta, reunindo milhões de foliões entre circuitos tradicionais, trios elétricos e blocos afro. Mas a grandiosidade que hoje marca a celebração é resultado de uma longa trajetória histórica, marcada por influências europeias, resistência cultural negra e constantes transformações musicais.
Segundo o historiador Vicente Glauberto, há diferentes versões sobre a origem da festa, mas um ponto é consenso: o Carnaval chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses.
“O Carnaval chega ao Brasil com o colonizador português. Havia em Portugal uma festa chamada entrudo. Era uma festa pagã, que antecedia a quaresma”, explica. De acordo com ele, o entrudo era marcado por brincadeiras populares. “As pessoas faziam bolinhas com água e jogavam umas nas outras, depois vinham com farinha. Era uma festividade bastante irreverente.”
A tradição, que remonta aos séculos XVII e XVIII, foi incorporada ao calendário cristão, antecedendo o período da Quaresma. “Ou seja, você conjugava primeiro o profano para depois adentrar ao sagrado”, pontua o historiador.
No século XIX, o Carnaval começou a assumir um novo formato. Inspiradas por festas europeias, como as de Veneza e da Alemanha, as elites passaram a organizar bailes de salão, enquanto o povo ocupava as ruas.
“As elites faziam um Carnaval de salão, algo mais fechado, elitista. Ao passo que o povo desenvolvia o Carnaval de rua, em que todos, independentemente da cor da pele ou condição social, podiam participar”, destaca Glauberto.
Em Salvador, essa divisão também se refletiu nos modelos de organização da festa.
Até a década de 1970, o Carnaval da capital baiana era dominado pelos blocos. “O bloco é uma forma de elitizar uma festa que é popular”, afirma o historiador. Na época, os foliões utilizavam as chamadas “mortalhas”, uma espécie de túnica comprida, sem mangas, usada como fantasia.
Foi nesse período que surgiu um dos maiores símbolos do Carnaval baiano: o trio elétrico, criado por Dodô e Osmar. Inicialmente, os trios tocavam frevo pelas ruas da cidade, consolidando uma nova dinâmica para a festa.
A grande transformação ocorreu na transição dos anos 1970 para os anos 1980, com o surgimento do axé music. “O frevo cede lugar ao axé. Foi uma verdadeira virada de chave”, ressalta Glauberto.
Artistas como Sarajane, Ricardo Chaves, Ivete Sangalo e Durval Lelys ajudaram a consolidar o novo ritmo que redefiniu o Carnaval de Salvador. Com o crescimento dos blocos comerciais, a mortalha deu lugar ao abadá, símbolo dos blocos organizados.
Outro momento decisivo foi o surgimento dos blocos afro, especialmente o Ilê Aiyê, considerado o primeiro bloco afro do Brasil. Sua criação representou um marco na luta contra a exclusão racial nos blocos tradicionais.
“Os blocos convencionais tinham o chamado ‘bloco gente bonita’. Para sair, era preciso submeter a foto à aprovação dos sócios. Se você fosse negro, pobre ou considerado fora do padrão, não era aceito”, relata Glauberto.
Com o Ilê Aiyê, essa lógica foi quebrada. O movimento ampliou o protagonismo da cultura negra no Carnaval e reforçou o processo de africanização da festa.
Ao longo das décadas, o Carnaval de Salvador passou por uma transição considerada “fantástica” pelo historiador: do entrudo europeu à consolidação de uma festa marcada pela música afro-baiana, pelos trios elétricos e pela diversidade cultural.
“Criamos uma miscelânea de manifestações que vão desde a escola de samba no Rio de Janeiro até o nosso Carnaval libertário da Bahia, em que você pode ser quem você quiser durante os sete dias”, afirma.
*Com informações do repórter Robson Nascimento
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